Cruz

quarta-feira, 4 de abril de 2012.
A cruz é um dos símbolos cuja presença é atestada desde a mais alta Antiguidade:



A cruz é um dos símbolos cuja presença é atestada desde a mais alta Antiguidade: no Egito, na China, em Cnossos, Creta, onde se encontrou uma cruz de mármore do séc. XV a.C. A cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais, juntamente com o centro*, o círculo* e o quadrado*. Ela estabelece uma relação entre os três outros: pela interseção de suas duas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas. A simbologia mais complexa deriva dessas singelas observações: foram elas que deram origem a linguagem mais rica e mais universal.


Como o quadrado, a cruz simboliza a terra; mas exprime dela aspectos intermediários, dinâmicos e sutis. A simbólica do quatro* está ligada, em grande parte à da cruz, principalmente ao fato de que ela designa certo jogo de relações no interior do quatro e do quadrado. A cruz é o mais totalizante dos símbolos.
Apontando para os quatro pontos cardeais*, a cruz é, em primeiro lugar, a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem. A orientação total do homem exige... Um triplo acordo: a orientação do sujeito animal com relação a ele mesmo; a orientação espacial, com relação aos pontos cardeais terrestres; e, finalmente, a orientação temporal com relação aos pontos cardeais celestes. A orientação espacial se articula sobre o eixo Este-Oeste, definido pelo nascer e pôr-do-sol. A orientação temporal se articula sobre o eixo de rotação da Terra ao mesmo tempo Sul-Norte e Em baixo, e em cima. O cruzamento desses dois eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância, no homem, das duas orientações, animal e espacial, põem o homem em ressonância com o mundo terrestre ima­nente; a das três orientações, animal, espacial e temporal, com o mundo supra temporal transcendente pelo meio terrestre e através dele. Não seria possível condensar melhor os significados múltiplos e ordenados da cruz. Uma síntese semelhante se verifica em todas as áreas culturais e se expande nelas em inúmeras variações e ramificações.


Na China, o número da Cruz é o 5, A simbólica chinesa... Ensinou-nos de novo a não considerar jamais os quatro lados do quadrado ou os quatro braços da cruz fora da sua relação necessária com o centro da cruz ou com o ponto de interseção dos seus braços... O centro do quadrado coincide com o do círculo. Esse ponto comum é a grande encruzilhada do imaginário.


A cruz tem, em conseqüência, uma fun­ção de síntese e de medida. Nela se jun­tam o céu e a terra... Nela se confundem o tempo e o espaço... Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima. Ela é a grande via comunicação. É a cruz que recorta, ordena e mede os espaços sagrados, como os templos*; é ela que desenha as praças nas cidades; que atravessa campos e cemitérios. A interseção dos seus braços marca as encruzilhadas*; nesse ponto central ergue-se um altar, uma pedra, um mastro. Centrípeta, seu poder é também centrífugo. Ela explicita o mistério do centro. É difusão, emanação. . . Mas também ajuntamento, recapitulação.
A cruz tem, ainda, o valor de símbolo ascensional. Numa adivinha medieval alemã, fala-se de uma árvore* cujas raízes estão no inferno e a rama no trono de Deus o que engloba o Mundo entre os seus galhos. Essa árvore é, precisamente, a cruz. Nas lendas orientais, ela é a ponte ou a escada de mão pela qual os homens chegam a Deus. Em certas variantes, a madeira da cruz tem sete degraus, da mesma que as árvores cósmicas representam os sete céus.
A tradição cristã enriqueceu prodigiosamente o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ela é mais que uma figura de Jesus, ela identifica com sua história humana, com sua pessoa. Celebram-se festas da Cruz: Invenção, a Exaltação da Cruz. Cantam-se hinos em sua honra: O Crux, spes unica. Ela também tem sua história: sua madeira veio de uma árvore plantada por Seth sobre o túmulo de Adão, e espalha fragmentos depois da morte do Cristo através de todo o universo, onde multiplica os mila­gres. E a cruz reaparecerá entre os braços do Cristo por ocasião do Juízo Final. Não existe símbolo mais vivo. Acresce que iconografia cristã se apoderou dela para exprimir o suplício do Messias, mas também a sua presença. Onde está a cruz, aí está o crucificado. A cruz sem cabeça (o tau, T); a cruz com cabeça e uma só barra horizontal; a cruz com cabeça e duas barras transversais; a cruz com cabeça e três barras transversais.
Os diversos sentidos que a simbólica lhe atribui não tem nada de absoluto. Eles não se excluem uns aos outros. Um não é ver­dadeiro e o outro falso. Exprime cada qual, uma percepção vivida e interpretada em símbolo.
A cruz em Tau simbolizaria a serpente fixada em uma estaca, a morte vencida pelo sacrifício. Já no Antigo Testamento ela se revestia de um sentido misterioso. Foi porque a madeira do sacrifício que ele levava aos ombros tinha essa forma que Isaac foi poupado: um anjo deteve o bra­ço de Abraão que ia imolar o filho.


A cruz com um braço transversal é a cruz do Evangelho. Seus quatro braços simbo­lizam os quatro elementos que foram vi­ciados na natureza humana, o conjunto da humanidade atraída para o Cristo dos qua­tro cantos do mundo, as virtudes da alma humana. O pé da cruz enterrado no chão significa a fé assentada em profundas fun­dações. O ramo superior da cruz indica a esperança que sobe para o céu; a enverga­dura da cruz é a caridade que se estende mesmo aos inimigos; o comprimento da cruz é a perseverança até o fim. A cruz grega, de quatro braços iguais, pode ins­crever-se num quadrado. A cruz latina di­vide desigualmente o madeiro vertical se­gundo as dimensões do homem de pé, com os braços estendidos, e só pode ser inscrita num retângulo. Uma é idealizada, a outra realista. De um patíbulo, os gregos fizeram um ornamento. As igrejas gregas e latinas foram geralmente projetadas para formar no solo uma cruz, grega no Oriente, latina no Ocidente. Mas há exceções.
A cruz com dois braços transversais re­presentaria, no braço superior, a inscrição derrisória de Pilatos, Jesus de Nazaré, rei dos judeus. O braço inferior seria aquele em que se estenderam os braços do Cristo. É a cruz dita "de Lorena", mas que provém, na realidade, da Grécia, onde é comum. A cruz com três braços transversais tor­nou-se um símbolo da hierarquia eclesiás­tica, correspondendo a tiara papal, ao chapéu cardinalício e à mitra episcopal. A partir do séc. XV, só o papa tem di­reito à cruz com três braços transversais; a cruz dupla se fez privativa do cardeal e do arcebispo; a cruz simples, do bispo.
Distingue-se igualmente a cruz da paixão e da ressurreição. A primeira recorda os sofrimentos e a morte do Cristo; a segunda, sua vitória sobre a morte. É por isso que ela é, em geral, adornada de uma bandeirola ou um galhardete e se parece com um estandarte ou labarum que o Cristo brandiria ao sair do sepulcro e cuja haste termina em cruz e não em ponta de lança. . . Já não é uma árvore, como na cruz da paixão, mas um bastão, diríamos, até, um cetro. É um patíbulo transfigurado.


Nos desenhos de cruzes gregas com dois braços transversais vêem-se as iniciais gre­gas do nome de Jesus Cristo e a palavra NIKE, que significa vitória. Ao pé de uma dessas cruzes se erguem um falcão* de asas abaixadas e uma águia* de asas aber­tas; ao pé da outra cruz, dois pavões* de caudas oceladas; uma dessas cruzes é tran­çada* de fitas, significando a união das duas naturezas, humana e divina, no Verbo encarnado; e outra cruz é feita de fitas entrelaçadas, com a mesma significação.
Na sua História de Deus, tão rica sob tantos aspectos, M. Didron dá um perfeito exemplo do adoçamento do símbolo em alegoria, e isso o leva, a nosso ver, a um verdadeiro contra-senso numa de suas in­terpretações. Ele registra um grande núme­ro de cruzes gregas aos pés das quais se afrontam animais que, diz ele, olham com terror ou com amor o signo da redenção sob o qual eles parecem humilhar-se. O leão*, a águia*, o pavão*, o falcão* são os animais que mais freqüentemente se vêem. A águia e o pavão, emblema do orgulho; o falcão e o leão, que lembram a violência cruel e a crueldade grosseira, poderiam muito bem significar que essas más paixões são obrigadas a passar sob o jugo da cruz. A pomba e a ovelha, que se encontram amiúde nos afrescos das cata­cumbas e nos sarcófagos antigos poderiam anunciar que as virtudes brotam da cruz como os vícios são abatidos por ela. Aqui, a alegoria só reteve um aspecto do símbo­lo, o mais exterior, o mais afastado da sua realidade profunda. Pensamos, ao contrá­rio, que todas essas figuras não fazem mais que exprimir um dos aspectos da figura inumerável do Cristo. Nenhuma imagem esgota a riqueza do Verbo Encarnado, como nenhum nome traduz o infinito da divindade. Remeta-o o leitor aos verbetes que lhes são reservados. O leão afirma a realeza do Cristo, que triunfa da morte pela sua morte na cruz; o pavão de asas oceladas sig­nifica a revelação pelo Verbo da Sabedoria divina, a manifestação da Palavra e da Luz; a águia revela a sublimidade do Sal­vador, que vive nas alturas; o falcão, a perspicácia da visão profética.
Esses animais não estão esmagados ao pé da cruz, como acontece em outros casos. Estão de pé, direitos, em toda a sua glória. Por que ver aqui oposição, e dizer que há semelhança com o Cristo quando são pom­bas e cordeiros os animais representados? É o mesmo processo de identificação que vale para todos esses animais ao pé da cruz. Quando eles não são esmagados, ser­vem para pôr em relevo, simbolicamente, um dos aspectos da própria personalidade do Redentor.
Em outras cruzes características, obser­vam-se as duas primeiras letras de Christos, em grego, XP, o Rho atravessando o X como um eixo vertical. Observam-se, igual­mente, o A e o ?, i.e., o alfa* e o ômega*, significando que o Cristo é o começo e o fim da evolução criadora, o ponto alfa e o ponto ômega. Outras monogramas apre­sentam no mais curto dos braços (com sêxtupla ramificação) as iniciais de Jesus Christo, o iota servindo de eixo em lugar do Rho.


Alguns desses monogramos inscre­vem-se num quadrado, referindo-se, dessa maneira, à vida terrestre e humana do Cristo. Outros, num círculo, como numa roda mística, evocando sua vida celeste e divina.
O poder do simbolismo nos primeiros séculos cristãos revela-se ainda na cruz mística, gravada na pedra, que reproduzi­mos. O sinete traz gravada uma cruz em tau (T); o chi (X) atravessa a haste do tau, que se arredonda em rho (P) por cima. O nome do Cristo e a forma da sua cruz estão resumidos nessas linhas. O Cristo, filho de Deus, é o começo e o fim de tudo; o A e O ? Começo e fim dos signos intelectuais e, por extensão, da própria in­teligência, e da alma humana, escoltam, por assim dizer, a cruz, à direita e à esquerda. A cruz esmagou a domou Satanás, a antiga serpente. A serpente se enrola, então, acorrentada, ao pé da cruz. Esse inimigo do gênero humano procura pôr a perder a alma, que é representada sob a forma de uma pomba. Mas a pomba, por ameaçada que esteja, olha a cruz, de onde lhe vem à força, e que a salva do veneno de Satã. A palavra SALUS, escrita no solo que sustenta a cruz e as pombas, é o canto de triunfo que o cristão fiel entoa em hon­ra de Jesus e da cruz.
Prosseguindo sua evolução no mundo dos símbolos, a Cruz se torna o Paraíso dos Eleitos. Uma edição da Divina Comé­dia, de 1491, mostra a cruz no meio de um céu estrelado, cercada de bem-aventurados em adoração. A cruz é, então, o símbolo da glória eterna, da glória conquis­tada pelo sacrifício e culminando numa felicidade extática. Só Dante poderia evocar uma visão dessas:
... Sobre essa cruz o Cristo resplande­cia a tal ponto que eu não saberia encon­trar imagem para representá-lo;
mas aquele que toma a sua cruz e segue o Cristo me desculpará por não saber ex­primi-lo, quando vir, na dita claridade, o Cristo brilhando como o relâmpago...
Nas tradições judaicas e cristãs, o sím­bolo crucífero pertence aos ritos primitivos de iniciação.


A cruz cristã é anunciada por figuras no Antigo Testamento, como os montantes e barrotes das casas dos judeus, marcados com o sangue do cordeiro sob um signo cruciforme; cordeiro assado so­bre duas achas apresentadas em forma de cruz.
A cruz recapitula a criação, tem um sen­tido cósmico. É por isso que Ireneu pode escrever, falando do Cristo, e da sua cru­cifixão: Ele veio sob uma forma visível para junto do que lhe pertence, e ele se fez carne e foi pregado na cruz de modo a resumir em si o Universo.
A cruz se torna, assim, o pólo do mun­do, como afirma Cirilo de Jerusalém: Deus abriu suas mãos sobre a cruz para abraçar os limites do Ecúmeno, e por isso o monte Gólgota ê o pólo do mundo. Gregório de Nissa falará da cruz enquanto sinal cósmico (Oratio de resurrectione). Lactâncio escreve: Deus, no seu sofrimento, abriu os braços e abraçou o círculo da terra. Os autores da Idade Média reto­maram o tema da cruz cósmica, que Agos­tinho valoriza em De Genesi ad litteram.


A presença da cruz é visível na natureza. O Homem de braços abertos simboliza a cruz. O mesmo se pode dizer do vôo dos pássaros, do navio com seu mas­tro, dos instrumentos de arar a terra. Assim, Justino, na sua Apologia, enumera tudo o que contém a imagem da cruz. A lista das cruces dissimulatae com­porta o arado, a âncora, o tridente, o mas­tro do navio com sua verga, a cruz ga­mada etc.
A cruz assume os temas fundamentais da Bíblia. Ela é árvore da vida (Génesis 2, 9), sabedoria (Provérbios, 3, 18), ma­deira (a da arca de Noé, a das varas de Moisés que fizeram brotar água da pedra, a árvore plantada junto das águas corren­tes, o bastão ao qual está suspensa a ser­pente de bronze). A árvore da vida sim­boliza, reciprocamente, o madeiro da cruz, donde a expressão empregada pelos latinos: sacramentum ligni vitae. Barnabé também descobre no Antigo Testamento todas as prefigurações da cruz.
Convém sempre distinguir a cruz do Cristo padecente, a cruz patíbulo, da cruz gloriosa, que deve ser vista num sentido escatológico. A cruz gloriosa, cruz da parusia, que deve aparecer antes da segunda vinda do Cristo, é o signo do Filho do Homem, signo do Cristo ressuscitado (v. o texto de Dante, já citado).
A cruz é ainda, na teologia da redenção, o símbolo do resgate devido por justiça e do anzol que pescou o demônio. Toda uma tradição exige a necessidade de um resgate ao demônio, baseado numa certa justiça. Esta intervém nas fases da economia re­dentora. O sacrifício da cruz era necessário e necessário, em consequência, a morte do Cristo para que o homem fosse liber­tado dos efeitos do pecado. Donde o uso freqüente do termo "resgate". A cruz lem­bra uma espécie de anzol que fisga o demônio, imobilizando-o e impedindo que ele prossiga sua obra.
São Boaventura compara também a Cruz do Cristo à árvore* da vida: A cruz é uma árvore de beleza; sagrada pelo sangue do Cristo cobre-se de todos os frutos.
A madeira da verdadeira cruz do Cristo ressuscita os mortos, segundo uma velha crença, Deve tal privilégio ao fato de ser essa cruz feita com a madeira da árvore da vida plantada no paraíso.
Na explicação da cruz celta, é necessário remeter o leitor ao simbolismo geral da cruz. Mas a cruz celta se inscreve num círculo que suas extremidades ultrapassam, de modo que ela conjuga o simbolismo da cruz e o do círculo. Poder-se-ia acrescen­tar um terceiro: o do centro, pelo fato da existência de uma pequena esfera no cen­tro geométrico da cruz e no meio dos bra­ços de inúmeros exemplos arcaicos de cruz. No curso dos primeiros períodos da arte irlandesa, as cruzes eram completamente inscritas no círculo e desprovidas de qual­quer decoração. Num segundo estádio de estilo, os braços ultrapassam ligeiramente o círculo. Por fim, as cruzes são maiores, cobertas e rendilhadas. É pos­sível reconhecer na cruz irlandesa sím­bolos celtas coincidindo com o simbo­lismo cristão. A correspondência quater­nária ilustra a repartição dos quatro ele­mentos: ar, terra, fogo, água, e de suas qualidades tradicionais: quente, seco, úmido e frio. Ela coincide com a divisão da Irlanda em quatro províncias com uma quinta ao centro, constituída pela ablação de uma parte de cada uma das quatro ou­tras. São também os Quatro Mestres da tradição analítica (que correspondem aos quatro evangelistas) e o sobrenome de São Patrício (Patrick), Coithrige (servidor) dos quatro. Os dois eixos da cruz fazem pensar ainda na passagem do tempo, nos pontos cardeais do espaço, e o círculo recorda os ciclos da manifestação. Mas o centro, no qual não há mais nem tempo nem mudan­ça de nenhuma espécie, é o sítio de pas­sagem ou de comunicação simbólica entre este e o Outro - Mundo. É um ônfalo, um ponto de ruptura do tempo e do espaço. A estreita correspondência das antigas con­cepções celtas e de dados esotéricos cristãos permite pensar que a cruz inscrita no círculo tenha representado para os irlan­deses do período carolíngio uma síntese íntima e perfeita do cristianismo e da tradi­ção celta.
Na Ásia, se o simbolismo da cruz não tem a mesma riqueza mística que no mundo cristão, não deixa de ter relevância. Não seria o caso de estudar em algumas linhas um simbolismo tão vasto quanto o da cruz, ao qual Guénon consagrou um volume inteiro. Tal simbolismo repousa essencialmente sobre o fato de que a cruz é com pelo cruzamento de eixos direcionais, se podem considerar de diversas maneiras, seja neles mesmos, seja no seu cruzamento central, seja na sua irradiação centrífuga. O eixo vertical pode ser considerado como ligação entre uma hierarquia de graus ou estados do ser; o eixo horizontal como o desabrochar do ser em um grau determinado. O eixo vertical pode figurar a atividade do Céu ou de Purusha; o eixo horizontal, a superfície das Águas, sobre a qual ela se exerce, e que corresponde à Prakriti, a substância universal passiva. Os dois eixos são, ainda, os dos solstícios e equinócios, ou o encontro desses com o eixo dos pólos. Obteríamos, então, uma cruz em três dimensões, que determina as seis direções do espaço.
A cruz direcional, que divide o em quatro, é intermediária entre o círculo e o quadrado, entre o Céu e a Terra, o símbolo, portanto, do mundo intermediário, e também o do Homem universal, na Tríade chinesa. É segundo São Martinho, o emblema do centro, do fogo, do Intelecto, do Princípio. Convergência das direções e das oposições, local do seu equilíbrio, o centro da cruz corresponde efetivamente ao vazio do meio, à atividade central não-operante, ao Meio Invariável (tchong-yong). A cruz é também — acabamos de perceber que o círculo dividido por ela era uma roda — o emblema da irradiação do centro, solar ou divino. Porque ela significa a totalidade do espaço, a cruz representa na China o número 10, que contém a totalidade dos números simples (Wieger).


A cruz vertical e central é, ainda, o eixo do mundo, o que está bem exemplificado no globo que tem ao alto uma cruz polar, símbolo imperial que os alquimistas identificavam com o cadinho regenerador.
Cumpre ainda lembrar o plano cruciforme dos templos hindus e das igrejas, nos quais a cabeça corresponde à abside, os braços ao transepto, o corpo e as pernas à nave, o coração ao altar ou ao lingam.
Encontra-se em Abu Ya'qub Sejestani uma interpretação esotérica toda particular do símbolo da Cruz, cujos quatro braços são identificados às quatro palavras da Shahada, que é a profissão de fé muçul­mana.


Fonte: Goticus Eternus

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